Imagem capa - Um mestre das paisagens marinhas por Dennis Calçada
Referências

Um mestre das paisagens marinhas

Gosto de dizer que beber em outras fontes é essencial para a evolução e crescimento em nosso trabalho. E falando em fotografia, beber em outras fontes não significa necessariamente buscar conhecer sobre outros fotógrafos (também), mas mergulhar em outras artes.

Por exemplo, uma que gosto bastante e sempre me inspira é a pintura. Entre tantos artistas, a referência que cito hoje é do pintor José Pancetti. Artista que “navegou” pelas paisagens urbanas, retratos e auto-retratos, mas que se notabilizou realmente pelas suas paisagens marinhas.


Tema esse que gosto muito e incluo nas minhas criações fotográficas também em forma de pintura, mas com a luz. Por isso, além do talento e poesia que carrega em suas obras a afinidade pelo trabalho de Pancetti foi imediata.


No começo suas criações eram elaboradas de forma analítica, em pinceladas lisas e batidas e organizadas em planos geométricos, sem ondas e sem vento, tornam-se, com o tempo, mais limpas e, por fim, beiram a abstração, reduzidas à areia, à luz e ao mar.






















A seguir listo algumas críticas sobre Pancetti que ilustram bem o talento deste pintor brasileiro, nascido em 1902 na cidade de Campinas.

"O marinheiro Pancetti é o maior paisagista moderno do Brasil. Seus quadros realizam a imagem da natureza d'aprés lê rêve e composição reconstituindo as linhas da percepção objetiva, mas o colorido inundando com imaginação o desenho meramente sensorial. Em todas as paisagens de Pancetti reina uma atmosfera azulada e sombria, de um azul denso, misterioso e triste, a constante emotiva do marinheiro. Se há um pintor poeta, é esse. Entre o seu quadro premiado e as duas marinhas é difícil estabelecer uma preferência. A densidade espiritual é a mesma. O mais que se pode dizer é que a paisagem da terra firme ofereceu um tema para o pintor demonstrar a variedade e a riqueza dos seus dons de coloristas".


Ruben Navarra
PANCETTI, José. Exposição de pintura de José Pancetti. São Paulo: Instituto dos Arquitetos, 1945. 7 p., il. p&b. p. 6.

"Uma obra que se dispôs a ser simultaneamente intuitiva e refinada, para a qual a vivência do mar - olhos entregues à distância de horizontes intermináveis ou ao mergulho na solidão interior - terá contribuído de modo muito direto no sentido de sua preferência pela paisagem marítima e pelo auto-retrato. Em qualquer um dos casos, a disposição de ir aos poucos simplificando e resumindo os detalhes da realidade a registrar na superfície da pintura, bem como a capacidade de conferir à cor, em amplas chapadas ou marcas quase instantâneas, poderosa função sugestiva determinaram sempre a evolução de Pancetti. Sua obra ficou como uma das raras demonstrações, na arte brasileira, de acerto no registro da paisagem litorânea, especialmente do Rio e da Bahia, captando-lhe a luminosidade exata e o equilíbrio entre contenção e exuberância. Equilíbrio que os seus retratos também souberam alcançar, ainda que tendentes mais para o retraimento e a introspecção".


Roberto Pontual
PONTUAL, Roberto. José Pancetti. In: Arte brasileira contemporânea: Coleção Gilberto Chateaubriand. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 1976. p. 115.

"Pancetti simplifica o mais que pode as suas marinhas. Reduz as cores a duas ou três tonalidades, com as quais joga com segurança magistral. Seu espírito de síntese torna-se, então, de um grande refinamento e, ao mesmo tempo, de uma rara pureza na pintura moderna brasileira".


Antônio Bento
BENTO, Antônio. Pancetti. In: LEITE, José Roberto Teixeira. Pancetti: o pintor marinheiro. Rio de Janeiro: Conquista, 1979. p. 99.

"O que nele é permanente é o artista, o pintor, o maior marinhista que o Brasil já teve e o paisagista interiorizado dos esfumatos, dos cinzas tonalizados mais belos que conhecemos de Campos do Jordão, e rival dos grandes como Segall, Volpi e Guignard. (...)

Sua pintura foi sempre uma imagem de cores fundamentais, de paisagens fundamentais, cara de gente, montanha, mar, vista através de uma percepção direta, primeira, quase de criança. Daí a frescura sem par de suas melhores telas. Foi sempre uma máquina de ver, de ver carinhosamente as coisas externas naturais, mesmo quando essas coisas naturais são barcos, pois, para marinheiro, barco, qualquer que seja, grande ou pequeno, é sempre obra da natureza, faz parte do mar, criador de tudo, das coisas e dos homens.

O velho Pancetti, entrado em anos, não consegue ser velho. E mesmo no leito de dor é moço, tem alma de menino. Seu diário é nesse sentido muito revelador. Menino vê tudo de olhos esbugalhados, como se fosse pela primeira vez. E vê tudo de fora, tal a atração que o espetáculo da vida sobre ele exerce. Pois é assim que age o nosso caro, grande Pancetti: até o seu tratamento, ele o encara de fora, como 'formalidades do costume: injeções, remédios, temperatura, pressão'".


Mário Pedrosa
PEDROSA, Mário. Pancetti e o seu diário. In: PEDROSA, Mário; AMARAL, Aracy (Org. ). Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. São Paulo: Perspectiva, 1981. p. 165-166. (Debates, 170).

"Pancetti faz parte do rol de artistas que, por esse ato de volição, mais determinado pela intuição do que pelo saber, embrenha-se na tarefa quase heróica de modernizar a cena artística brasileira. E o esforço dessa modernização haveria de corresponder ao esforço por atingir a planaridade do espaço, objeto de todo o processo pictórico moderno. Aderir a esse espaço plano, superficial, tinha porém implicações de várias naturezas. 


Significava a ruptura com a perspectiva ilusionista da representação em profundidade, ruptura de antigos esquemas geométricos convencionais, que havia acompanhado a descoberta da física newtoniana de que todo o espaço é plano. Significava ainda a busca da pintura em se instituir como um campo autônomo e autocrítico, que reconhecia como seu componente exclusivo a bidimensionalidade. O artista europeu desconstrói então a idéia monolítica do espaço em perspectiva fixa, começa a justapor e a articular múltiplos planos sem violar a superfície da tela, e a criar imagens heterogêneas e fragmentadas, que procuram exprimir o próprio dilaceramento do mundo. Essa teria sido, em última instância, a operação cubista. O processo progressivo e radical da conquista do plano, de Cézanne a Mondrian, passa pois por esses dois fatores determinantes: primeiro, contrapõe-se à estabilidade da imagem renascentista perspectivada, como forma de declarar a instabilidade do mundo moderno, e, segundo, busca uma racionalização das formas e dos espaços para, utopicamente, reconduzir esse mundo à ordem. 


Certamente a procura de Pancetti pela superficialidade da pintura não passa por tais esclarecimentos. Ele provavelmente mais 'intuiu' do que reconheceu as qualidades modernas. Mas sabemos de sua admiração por Cézanne. Uma admiração que soube conectar Cézanne com esse anseio, também seu, pela geometrização e planificação dos espaços. Raras, aliás, as afinidades modernistas brasileiras com Cézanne e Pancetti".


Ligia Canongia
CANONGIA, Ligia. Pancetti: o mar imóvel. In: PANCETTI, José. Pancetti - O marinheiro só. [Salvador]: Museu de Arte da Bahia, 2000. p. 20-21.