08/04/2021 às 22:48 Entrevistas

“Escolhi o caminho com o coração e nele mergulhei obstinadamente”. Entrevista com Araquém Alcântara

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Com 50 anos de carreira na fotografia recém completados, Araquém Alcântara segue um incansável descobridor de mundos com suas andanças, registrando e reforçando a nossa brasilidade de tantos Brasis.

Com a mesma vontade daquele menino de quando descobriu sua missão de falar por intermédio da fotografia, ainda aos 19 anos, na cidade de Santos – mas Araquém é nascido em Florianópolis -, não à toa, está entre os grandes nomes e ícones da fotografia mundial e referência obrigatória quando o assunto é natureza e Brasil.

Desta forma, na entrevista a seguir, vamos saber e conhecer um pouco mais desse fotógrafo de olho-gatilho que segue inspirando, documentando, denunciando e exaltando de maneira única as questões desta nossa Terra Brasil com suas poesias visuais.

1. 50 anos recém completados de uma linda carreira. Fale um pouco sobre o início.

Aos 14 anos eu queria ser jornalista, quem sabe escritor. Atravessei a adolescência embrenhado nos saberes e textos como Grande Sertões Veredas, de Guimarães Rosa, Lima Barreto, Machado de Assis, J. D. Salinger, Joseph Konrad, Lima Barreto, Manoel de Barros... Em 1970, ingressei na Faculdade de Comunicação de Santos. Não demorou muito e logo trabalhava na sucursal do Estadão e Jornal da Tarde. Tudo certo.

     Em 2020 Araquém passou 25 dias fotografando um dos principais desastres ambientais no Pantanal

2. E quando se deu o encontro e escolha pela fotografia?

Certa noite fui assistir uma sessão maldita que um francês, Maurice Legeard, organizava em Santos. O filme era A Ilha Nua, de Kaneto Shindo. Um filme quase sem muitas palavras. Um casal vivendo com dois filhos numa ilha inóspita. Uma rotina diária de levantar, buscar água, preparar a terra, a comida, buscar água outra vez, a canoa no trapiche, os pássaros nas pedras, os remos contra as ondas. A força e a beleza da pura imagem. A foto como síntese do dizer. Eu, dominado no escuro, fui tendo uma epifania, um negócio. Sai dali tonto, abalroado, chamado.

No dia seguinte uma amiga, Marinilda, mostrou-me umas fotos bem comuns, de álbum de família, feitas com uma daquelas Yashica muito caseira. Ainda doente, febril do filme, mal olhei as fotos. Pedi a Yashica emprestada para ela, comprei três filmes preto-e-branco e à noite fui para um cabaré do porto – de Santos -, onde costumava ouvir bandas de rock e, com sorte, a canja de algum famoso de passagem.

Câmara na mão, filmes no bolso, nenhuma técnica na cabeça e nervoso como em toda primeira vez. Mesmo sem coragem para nada, sentia e sabia que naquela Yashica, naqueles filmes, estava segurando uma vida. Saí tarde, sem apertar o botão.

No ponto do ônibus e envolto aos pensamentos, já amanhecia, quando uma das moças do cabaré passou e desafiou ao me ver com a câmera na mão:

– Quer fotografar, é? Quer fotografar? Pois então fotografa aqui. Levantou a saia e mostrou o sexo.

Foi minha primeira foto.

Não parei mais. As palavras já não serviam. Gaguejava nelas. O que interessava agora eram livros de fotografias, e imagens: Kurosawa, Bergman, Truffaut, Fellini, Wells, e os grandes fotógrafos, Cartier-Bresson, Werner Bischoff, Ansel Adams e Ernest Haas.

3. O seu primeiro tema/ensaio foi um tanto inusitado, os urubus de Santos. Fale sobre esta escolha.

Eles estavam sempre por ali, sempre próximos ao que sobrava, peixes mortos na praia, detritos em Cubatão. Sempre próximos à miséria.

Título meio panfletário de minha primeira exposição, em janeiro de 1973, no Clube XV de Santos: Os urubus da sociedade. Panos pretos cobriam as fotos dos urubus, os detritos da cidade... O visitante, para ver, tinha de desvelar, levantar a saia. Influência inconsciente daquela primeira foto no cabaré do cais? Pode ser, só que o obsceno ali era social. Aliás, a exposição foi tachada de comunista e crivada de perguntas. Por que fotografar urubus, miseráveis, bichos que não vendem.

Fui prosseguindo. Já tinha uma espécie de lema. Escolher, sempre, com o coração. Prosseguir e não me arrepender de começar apostando no urubu.

Uma tarde, ainda em 1973, voltava da cobertura de uma regata quando olhei um urubu na calçada, em frente de uma peixaria. Da peixaria sai uma menina de uns três, quatro anos e se aproxima, encantada, com o urubu. Ajustei firme minha modesta Pentax Spotmatic. Pressenti. Ia me certificar depois, a vida inteira, de que foto é pressentimento, a premonição de que alguma coisa de simples e grande vai acontecer.

Aconteceu. A menina se inclinou para afagar o urubu. O urubu já estava abaixando docilmente a cabeça quando dois homens saíram nervosos da peixaria. Um agarrou a criança, outro enxotou o urubu. Em seis fotos registrei a cena toda. Em seis palavras contei a história. Num segundo descobri que ser fotógrafo é registrar a história instantânea deste mundo. Que é preciso estar ali quando a vida, de repente, levanta a saia – e mostra.

Na época, a revista Fotoptica publicou a seqüência do urubu na calçada.

4. Estamos vivendo um momento difícil e de incertezas. Qual o papel da fotografia na sociedade?

A fotografia é uma linguagem que está muito ligada ao lúdico, ao prazer, à beleza, mas também pode ser um forte instrumento de transformação e testemunho social, de esclarecer e trazer a luz. Fotografia é a linguagem da luz, junto dela há uma possibilidade política e ideológica do fotógrafo demonstrar o que pensa, o que acredita, aquilo com o que ele se revolta. Não só a beleza. O fotógrafo, pode, com o seu trabalho, mostrar as mazelas, os erros, as atitudes desumanas. A fotografia é um poderoso instrumento de mostrar a verdade e de tentar fazer justiça.

5. Como referência no mercado e inspiração para muitos, qual o seu conselho para quem deseja seguir no caminho da fotografia?

Escolher com o coração, acreditar e perseverar. O mercado fotográfico no Brasil ainda é muito restrito, principalmente para os iniciantes. A profissão não tem a devida valorização. Mais importante ainda é mergulhar no desenvolvimento de um ensaio. E lutar para publicá-lo, seja em exposição, livro ou editorial de revista.  

É fundamental exercitar continuamente. O exercício constante realça a inventividade, aproxima o aprendiz do espírito criador.

Além disso é preciso castigar os olhos e ganhar repertório: submeter o resultado do trabalho à apreciação dos mais avançados, ler muito, ver muita fotografia e cinema, ler o melhor da literatura mundial, estudar os grandes mestres.  O fotógrafo precisa encarar o desafio, sempre difícil, de mostrar o que produziu, seja entre amigos, nos cursos, em jornais, revistas ou exposições. É aí que ele cresce como pessoa e autor.

6. Você, particularmente, seguiu alguma receita para alcançar e manter o sucesso na fotografia?

Escolhi o caminho com o coração e nele mergulhei obstinadamente. Esta é a receita. Segui a estrada com perseverança e fé.  Não esmoreci. Vejo a fotografia como um caminho de autoconhecimento, uma poderosa arma de encontrar o mundo. Uma poderosa arma de transformação.

A leitura dos grandes mestres, seja na fotografia, literatura ou cinema me deu coragem para prosseguir, mesmo nos momentos mais difíceis.

Sou pioneiro. Minha maior contribuição à fotografia e à ecologia é que sistematizei a documentação dos ecossistemas do Brasil em livros que hoje se tornaram referência e fonte de estudos.

7. De que forma você define o seu estilo na fotografia?

Como um intérprete do Brasil, de sua natureza e de sua gente. Meu estilo é particular e próprio. Fotografo com a alma, com o olhar compassivo e amoroso. Meu estilo é inspirado na fotografia clássica dos grandes mestres, Henri Cartier-Bresson, Ansel Adams, Robert Frank, Eugene Smith, Werner Bischoff etc…

8. Você tem um fato e/ou momento importante para destacar nesta sua trajetória como fotógrafo?

No início da década de 80, quando resolvi lutar contra a instalação de usinas atômicas no litoral sul de São Paulo. Minhas fotos contribuíram para a primeira grande vitória da ecologia brasileira. As manifestações da opinião pública, em plena ditadura militar, forçaram o governo a desistir da implantação de duas centrais nucleares entre Peruíbe e Iguape. Hoje, mas de cinquenta praias de rara beleza e uma área de mais de 150 mil hectares de mata atlântica foram transformadas em santuários ecológicos.

9. Você já citou o nome de algumas referências. Mas tem algum nome específico que você destaca e por quê?

Ansel Adams. Por que além de genial, criou o sistema de zonas e o seu trabalho foi uma arma de transformação social. Deixou um importante legado.

10. Por fim, deixe uma mensagem/conselho para os amantes da fotografia.

A grande foto surge se você estiver preparado para a sorte, para aquele momento fugaz em que a beleza aflora na sua frente. O fotógrafo tem que estar com a mente desperta, absolutamente íntegro, absolutamente livre,  como no livro A arte cavalheiresca do arqueiro zen. O resto é castigar os olhos e navegar colecionando mundos.

08 Abr 2021

“Escolhi o caminho com o coração e nele mergulhei obstinadamente”. Entrevista com Araquém Alcântara

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