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Entrevistas

"Sim, a fotografia tem a obrigação de informar, quebrar preconceitos e buscar a verdade." Entrevista com Márcio Vasconcelos

Natural da cidade de São Luís, Márcio Vasconcelos é fotógrafo profissional e que realiza um ótimo trabalho autoral, no qual a predominância dos temas na grande parte caminha pela linha da Cultura Popular e Religiosa dos afro-descendentes no Maranhão.


Seu trabalho sempre ancorado com muita pesquisa e referência sobre o assunto definido resulta em trabalhos não apenas ótimos visualmente falando, mas completos e com história.


Entres seus projetos gosto de ressaltar Zeladores de Voduns (Vencedor do 1º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras/2010 - Fundação Cultural Palmares/Petrobras), Nagon Abioton (Um Estudo Fotográfico e Histórico sobre a Casa de Nagô), Poema Sujo (Vencedor do XIV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia) e Na Trilha do Cangaço (. Vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia e finalista do Prêmio Conrado Wessel 2011).


A seguir confira a bela entrevista concedida por Márcio Vasconcelos.


1. Fale como foi seu início na fotografia. Hoje você vive exclusivamente dela?

Comecei como todo fotógrafo amador, fotografando tudo que gostava e mexia comigo. Nascido no Maranhão, estado dono de uma herança cultural africana muito rica, logo fui abduzido por todo esse encantamento. Primeiro a cultura popular, depois a religiosa afrobrasileiras. Vivo exclusivamente da fotografia e projetos paralelos.


2.Ainda sobre os temas, em especial as religiões afro-descendentes. Além de documentar, acredita que o trabalho também serve para acabar com certos estereótipos que são promovidos e até certa desinformação sobre o assunto?

Sim, a fotografia tem a obrigação de informar, quebrar preconceitos e buscar a verdade. Quando fiz Zeladores de Voduns, a minha maior alegria foi ouvir dos fotografados palavras de agradecimentos por tê-los mostrados de forma digna e respeitosa. Na verdade, os personagens deste livro são para mim verdadeiros Reis e Rainhas que carregam toda uma ancestralidade.




3. Como acontece a escolhe do tema? E depois como gosta de trabalhar as próximas etapas do trabalho?

Estou sempre atento ao que gosto, tenha afinidade e ao que me cerca. Procuro temas que carregam uma história ou que dialoguem com outras artes, como a poesia no trabalho com o Poema Sujo. Muitas vezes este tema aparece como um espanto, cai no meu colo. O trabalho que estou iniciando agora surgiu numa viagem recente a Ouro Preto. Lá, senti uma carga muito forte do sofrimento dos escravos que trabalharam nas minas de ouro, assim surgiu “Espíritos de Senzalas”, que está em processo de pesquisas.

Após a escolha do tema procuro me aprofundar nos estudos e encontar pessoas que possam colaborar no desenvolvimento, serão meus parceiros ou coautores. No processo de produção das imagens gosto de ser mais solitário, reflexivo, paciente e silencioso.


4. Nosso país possui uma enorme riqueza cultural. Com todo esse material para ser explorado, acredita que ainda é muito pouco o que temos em trabalho documental sobre a nossa cultura?

Vivemos num país multicultural e pluriracial, sempre vai haver muita coisa pra ser pesquisada, descoberta e mostrada. Como dizia Darcy Ribeiro, Viva o povo brasileiro!




5. Das Festas Populares que já fotografou tem alguma específica que goste mais e por quê?

Mais do que as festas, gosto de manifestações que tenham rituais, celebrações,  manifestações espirituais e transe, como o Tambor de Mina, Terecô, Santo Daime, por exemplo. Me envolvo muito também com os batuques, bailados e cânticos.


6. Agora no Festival do Valongo tive a oportunidade de conhecer de perto dois dos seus trabalhos: Visões de um Poema Sujo (exposição e locação ótimos dentro do festival) e Na Trilha do Cangaço O Sertão que lampião Pisou (livro). Fale um pouco deles, a inspiração e as principais dificuldades que encontrou se é que teve.

Estes dois projetos foram vencedores do Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotográfia e assim pude realizar a produção.


Sobre a Trilha do Cangaço

Eu sempre tive uma atração muito forte pela paisagem do sertão e a vida sertaneja, tinha em mente que mais cedo ou mais tarde teria que fazer um trabalho nesse cenário. Aí surgiu a ideia de juntar tudo isso à história de Lampião e o cangaço.

A proposta do projeto era resgatar e refazer os caminhos percorridos por Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá, e seus bandos, através da elaboração de uma trilha que ligasse locais que foram simbólicos na história do cangaço pelos sertões nordestinos. Desta forma, a trilha deveria começar no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada (PE), local do nascimento de Virgulino Ferreira da Silva, e terminar na Grota de Angico, na beira do Rio São Francisco, em Sergipe, onde Lampião foi morto pela volante do Tenente João Bezerra.

Além do aspecto físico desse sertão revisitado, o projeto procurou também identificar, localizar e fotografar personagens que fazem parte dessa história, ou descendentes destes, e que ainda se encontram vivos para contar “causos” e atestar a veracidade do mito Lampião e Maria Bonita.


Sobre Visões de um Poema Sujo

Apesar de ter um lado bem documental na maioria dos meus trabalhos, há muito tempo namorava uma maneira de dialogar com a literatura. Este projeto propõe uma interpretação imagética do Poema Sujo, uma das principais obras da literatura brasileira, do escritor maranhense Ferreira Gullar, Visões de um Poema Sujo relê e recria as inúmeras cenas que o poema descreve sobre a cidade de São Luís, quando Gullar estava exilado em Buenos Aires, no tempo da ditadura, em meados da década de 1970. O ensaio traz todo o drama que o escritor viveu naquele momento e a minha visão autoral de como Gullar imaginava e traduzia em versos a São Luís de sua infância.


Crio sensações visuais como se estivesse no lugar do poeta,  reinventando a São Luís em que ele viveu, seus tons e nuances.


O Poema sujo é o livro de Ferreira Gullar mais conhecido internacionalmente e já foi publicado na Alemanha, Espanha, Colômbia e EUA.




7. Quais as suas principais referências dentro e fora da fotografia?

Tenho uma identidade muito forte com os trabalhos do Mario Cravo Neto e do Miguel Rio Branco


8. Com a chegada da tecnologia digital e junto com ela uma “chuva” de imagens, como você enxerga o futuro da fotografia?

Na época do analógico se pensava primeiro antes de fotografar. Hoje, com o digital, se fotografa muito, e de qualquer jeito, para depois pensar e corrigir no Photoshop. Uma coisa que me chama atenção é que estamos fotografando em demasia e não estamos preocupados com o armazenamento destas imagens. Os dispositivos de armazenamento estão em constante transformação. Podemos no futuro ficar sem a memória do que fotografamos hoje.


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